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5 de out. de 2010

Alternativa a células-tronco embrionárias causa polêmica


Células-tronco de pele adulta podem gerar dilemas éticos tão grandes quanto as do tipo embrionário
por Sally Lehrman
iStockphoto

Células iPS talvez não sejam a melhor alternativa, discutem os cientistas

Quando pesquisadores demonstraram pela primeira vez, em 2007, que células da pele humana poderiam ser reprogramadas para se comportar como células-tronco – que podem se diferenciar completamente em outros tipos de células – tanto cientistas quanto políticos exultaram. Todo o potencial das células-tronco embrionárias poderia ser aproveitado com as novas técnicas – sem a controvérsia política e moral associada à destruição de óvulos fertilizados.

Esse otimismo, entretanto, pode ser precipitado. Essas células transformadas, conhecidas como células-tronco pluripotentes induzidas ou células iPS (do inglês induced pluripotent stem cells), na verdade apresentam dilemas éticos igualmente preocupantes, de acordo com bioeticistas presentes no encontro anual da Sociedade Internacional para Pesquisa de Células-Tronco. Não apenas permanecem muitos dos desafios éticos apresentados pelas células-tronco embrionárias, mas a relativa facilidade e baixos custos das técnicas de células iPS, combinados com a acessibilidade das mesmas, tornam premente a necessidade de se abordar possibilidades com ares futurísticos como a criação de gametas para reprodução. Cientistas já relataram progressos na produção de células precursoras de óvulos e espermatozoides tanto de linhagens de células-tronco iPS quanto embrionárias.

Embora aperfeiçoar o processo possa demorar mais uma década, “devemos começar a pensar cuidadosamente sobre isso agora”, observa Kazuto Kato, bioeticista da Universidade de Quioto, no Japão. Para se assegurar que os gametas funcionem normalmente, por exemplo, pesquisadores necessitarão produzir embriões e depois destruí-los, prática moralmente questionável com proibições e políticas diferentes ao redor do mundo. Espermatozoides e óvulos de células da pele poderiam, por fim, ser usados para fins reprodutivos, possibilitando a procriação em qualquer idade e utilizando-se tecidos tanto de pessoas vivas quanto mortas. Em clínicas de fertilidade as células iPS permitiriam aos futuros pais escolher embriões com as características desejadas mais facilmente do que conseguem com a tecnologia convencional de reprodução assistida. As possibilidades levantam uma questão radical sobre o status moral das células humanas, observa Jan Helge Solbakk, chefe de pesquisa do Centro para Ética Médica da Universidade de Oslo, na Noruega, e presidente do comitê de ética e política pública da Sociedade.

Embora Kato considere a clonagem humana reprodutiva direta de linhagens de células iPS “muito hipotética”, ele aponta o progresso nesse sentido quando observa que três equipes já produziram ratos clonados de células iPS. Menos dispendioso e mais eficiente que o processo que produziu a ovelha Dolly, a abordagem iPS também evitaria o vocabulário utilizado em muitas proibições atuais de clonagem humana reprodutiva. Alguns bioeticistas já solicitaram uma nova proibição internacional que claramente impeça a criação de um clone humano em parte por conta das tentadoras possibilidades de uso em pesquisa de embriões em estágios iniciais.

Preocupações mais imediatas estão relacionadas com o controle da doação de tecidos cultivados a partir de células iPS. “Biobancos” no mundo todo já armazenam material biológico e dados relativos a ele para pesquisa, e muitos não solicitam consentimento para uso futuro desde que o material não possa mais ser relacionado ao doador. O potencial de longo alcance da pesquisa com iPS, combinado com a possibilidade das linhagens de células permanecerem ligadas a um único doador (e ao histórico de saúde desse doador), reforçam a necessidade de um consenso sobre a questão, observa Timothy Caulfield, diretor de pesquisa do Instituto de Direito Sanitário da University of Alberta, em Edmonton.

Tal consenso, entretanto, pode ser difícil de obter. Em uma pesquisa sobre atitudes, Caulfield notou uma tendência: pesquisadores clínicos, pacientes participantes, especialistas em privacidade e o público em geral discordam sobre se o consentimento seria necessário para cada novo uso do tecido doado ou se bastaria um consentimento geral. E como um doador de células arrependido faria para desistir caso linhagens de células iPS tivessem sido distribuídas para o mundo todo? As normas internacionais básicas de consentimento e desistência para pesquisas podem não se aplicar mais. “Temos de reconhecer todas as questões complicadas que a pesquisa de iPS está acarretando e ter uma noção de como as políticas e leis existentes funcionam”, acrescenta Caulfield.

Alguns eticistas sugerem que doadores de tecido merecem participar do tremendo potencial comercial das linhagens de células iPS que servem como modelos de doenças, plataformas de testes de medicamentos e tratamentos. Novas parcerias poderiam considerar as contribuições dos doadores e dos laboratórios que cultivam e mantêm as linhagens de células iPS. Solbakk sugere que os doadores possam receber alguma compensação monetária e ter o direito de excluir determinados usos para as células iPS, como a criação de gametas ou espécies mestiças, ou então ter voz ativa no curso geral da pesquisa.

O comitê de ética da Sociedade de Células-Tronco está trabalhando em um documento a der divulgado até o final do ano no qual discorre sobre os direitos dos doadores de tecido e faz recomendações. Solbakk também espera realizar mais fóruns públicos para esclarecer os avanços na pesquisa e ao mesmo tempo estimular a reflexão sobre os aspectos éticos. Ele declarou que a Sociedade continuará com seus esforços para evitar excessos nesse campo, como disponibilizar um novo website no intuito de ajudar pacientes a avaliar declarações de clínicas que ofereçam tratamentos de células-tronco e até mesmo indicar uma clínica para avaliação por parte da Sociedade. Acrescenta que “o recurso mais vulnerável é a confiança”.

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